
Deste lado do Mar a consciência desperta... Hoje foi um daqueles dias...
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Uma pessoa acorda de manhã e sai para a sua vida. Na estrada cruza-se com inumeros veiculos, mas sem nunca reparar em rostos. No trabalho dizem-se os bons dias da praxe "olá tudo bem?" enquanto se anda e sem na realidade reparar bem com quem se fala... Hoje parece que não acordei para a vida. Passei o dia numa espécie de dormência, a fazer o que faço normalmente, mas hoje de uma forma mecânica. Fiz porque tinha que fazer. Falei porque tinha que falar. Hoje atendi o telefone exactamente 124 vezes ( o que diga-se de passagem, foi uma miséria). Em 124 chamadas fui mecânica. "então tudo bem? sim tudo e contigo?" Se me tentar lembrar de alguma conversa mais humana, não consigo.
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A S. disse que se calhar so daqui a uns meses é que iria cair a ficha e eu iria andar de mau humor e insuportável (mais que o costume) e nem me aperceberia porquê. É mentira. A ficha caiu. Apercebo-me disso todos os dias. Não é fácil.
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A K. disse para unca me culpar pelo que fiz. Não culpo. Culpo-me sim pela estupidez, pela falta de inteligência que me fez chegar ao ponto de ter que decidir fazer o que fiz. Culpo-me todos os dias. Não é fácil.
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O peso de uma decisão que nos cabe só a nós e de que demos conhecimento a duas pessoas neste mundo, nenhuma delas relacionadas com o assunto é avassalador. Falo com quem de direito todos os dias. Nunca disse nada. Não vou dizer. Não me arrependo disso. Mas sinto o peso do segredo todos os dias. Não é fácil.
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Passei por 8 horas de trabalho a sorrir, a falar, a trocar opiniões com os colegas. Mas não era eu. A mente pensava em tudo menos naquela sala, naquela tarefa. Eu estava em todo lado menos ali. Aguentei o sorriso durante 8 intermináveis horas. Não foi fácil.
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Ontem foi mais fácil.
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Será que amanhã será mais fácil? Espero que sim. Isto de ter consciência dá nisto. Entro numa espécie de vida mecanizada enquanto por dento me fragmento ao longo do dia, para depois ir voltando tudo ao lugar e quando finalmente parece estar tudo no sitio, o torpor exterior voltar e o desabamento interior recomeçar...
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E desse lado do Mar, sentes o peso do segredo?
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SBFR